Operação Fallax: PF desvenda esquema de lavagem de dinheiro envolvendo Grupo Fictor e Comando Vermelho

Grupo Fictor e células do Comando Vermelho utilizavam estrutura comum para fraudes financeiras em três estados, aponta investigação da PF.
A Polícia Federal deflagrou a Operação Fallax para desarticular um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro e fraudes bancárias que envolvia o Grupo Fictor e membros do Comando Vermelho. A ação resultou na prisão de pelo menos 15 pessoas e investiga movimentações superiores a R$ 500 milhões em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.
A Operação Fallax, realizada pela Polícia Federal na última quarta-feira (25), revelou um esquema complexo de lavagem de dinheiro e fraudes bancárias que envolvia o Grupo Fictor e células da facção criminosa Comando Vermelho (CV). Segundo a investigação, ambas as organizações utilizavam a mesma estrutura, baseada em empresas de fachada, movimentações financeiras simuladas e cooptação de funcionários de bancos para ocultar recursos ilícitos e fraudar instituições financeiras. A ação cumpriu 43 mandados de busca e apreensão e 21 de prisão preventiva em cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, com a detenção de pelo menos 15 suspeitos, incluindo dois gerentes da Caixa Econômica Federal e uma ex-gerente do Banco do Brasil. Rafael de Gois, CEO do Grupo Fictor, e Luiz Rubini, ex-sócio da empresa, foram alvos da operação. Mandados foram cumpridos em seus endereços em São Paulo, e contra Rubini também foi determinada a quebra de sigilo bancário. A defesa de Gois informou que apenas um celular foi apreendido e que prestará esclarecimentos oportunamente, enquanto a defesa de Rubini ainda não se manifestou. A investigação, iniciada em 2024, identificou que o Grupo Fictor funcionava como o núcleo financeiro do esquema, criando um sistema profissional de fraude que incluía a abertura em massa de empresas fictícias com sócios únicos e capital social simulado. Essas empresas apresentavam contabilidade fraudada, com documentos manipulados para simular alto faturamento, o que facilitava a obtenção de crédito bancário. A movimentação financeira era artificial, com pagamentos cruzados e transferências internas que inflavam o histórico bancário, enganando as instituições financeiras e permitindo a circulação de valores ilícitos. A participação de funcionários de bancos foi fundamental para o funcionamento do esquema. Gerentes inseriam dados falsos nos sistemas internos, facilitando saques, transferências e aprovações de crédito baseadas em informações fraudulentas. A PF destacou que instituições como Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra foram vítimas de prejuízos milionários. O dinheiro ilícito, após circular pelas empresas de fachada, era convertido em bens de luxo e criptoativos, dificultando o rastreamento. O esquema operava por períodos limitados, geralmente entre um e um ano e meio, após os quais as empresas eram abandonadas, os empréstimos deixados de pagar e os responsáveis desapareciam, tornando a recuperação dos valores quase impossível. A Polícia Federal também identificou que células do Comando Vermelho utilizavam a mesma estrutura para lavar recursos provenientes do tráfico de drogas. A facção criminosa, que tem atuação significativa em São Paulo, especialmente nas cidades de Rio Claro e Araras, mantém uma aliança com o Grupo Fictor para facilitar essas operações financeiras ilícitas. A liderança do grupo conhecido como “Bonde do Magrelo” foi assumida por Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, o “Léo Bode”, após a prisão de Anderson Ricardo de Menezes, o “Magrelo”, em maio de 2023. Léo Bode está foragido e, segundo informações de inteligência, está no Rio de Janeiro, em área controlada pelo Comando Vermelho, coordenando transações de armas e drogas. A Justiça Federal determinou o bloqueio e sequestro de bens, veículos e ativos financeiros até o valor de R$ 47 milhões para impedir a continuidade das atividades criminosas. Além disso, foram autorizadas medidas para rastreamento de ativos financeiros, incluindo a quebra de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 pessoas jurídicas. Os investigados podem responder por crimes como organização criminosa, estelionato qualificado, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva, além de crimes contra o sistema financeiro nacional, com penas que somadas ultrapassam 50 anos de prisão. Em nota, a Caixa Econômica Federal afirmou que coopera com as autoridades no combate a fraudes e que o esquema foi identificado por meio dos seus mecanismos internos de monitoramento, ressaltando seu compromisso com a integridade e transparência. A operação contou com o apoio da Polícia Militar de São Paulo e representa um importante avanço no combate a fraudes financeiras que impactam o sistema bancário e a segurança pública.
Contexto
O Grupo Fictor ganhou destaque em 2023 ao anunciar a compra do Banco Master, poucos dias antes da liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central. A crise reputacional que se seguiu levou ao pedido de recuperação judicial das empresas do grupo. Paralelamente, o Comando Vermelho, facção criminosa tradicionalmente ligada ao Rio de Janeiro, ampliou sua atuação em São Paulo, especialmente após a prisão de seu líder local, Anderson Ricardo de Menezes, em 2023. A aliança entre o grupo paulista e o CV carioca facilitou a expansão de esquemas criminosos, incluindo lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, evidenciando um ecossistema criminoso que integra empresários, operadores financeiros e facções.

