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IMPÉRIO BILIONÁRIO DAS “BETS DO CRIME” DESMORONA EM MEGAOPERAÇÃO POLICIAL

Imagem de agentes da Polícia Civil do Distrito Federal
Imagem: Reprodução/Polícia Civil do DF

A Polícia Civil do Distrito Federal bloqueou R$ 3,48 bilhões e desarticulou na manhã desta quinta-feira, 5 de novembro, uma engrenagem bilionária que usava a fachada de apostas digitais para lavar dinheiro do crime organizado em escala industrial.

Batizada de Operação Azzardo, do italiano gioco d’azzardo, que significa jogo de azar, a ação mobilizou cerca de 200 policiais civis da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, a Draco/Decor, para cumprir 50 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em outros cinco estados.

O cerco judicial é inédito no país. Determinado pelo Juízo das Garantias de Sobradinho, ele não se limita ao bloqueio de contas até o limite de R$ 3,483 bilhões. A Justiça também determinou a indisponibilidade de bens mantidos em instituições supervisionadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários, a suspensão das inscrições no CNPJ e registros em juntas comerciais de 100 empresas e a proibição absoluta de abertura de novas contas bancárias pelos investigados pelo prazo de 90 dias, além do afastamento dos sigilos bancário e fiscal de 82 pessoas físicas e 83 pessoas jurídicas e o sequestro de veículos de alto padrão encontrados durante as buscas.

No total, são 24 mandados cumpridos no Distrito Federal e outros 26 espalhados por São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte, com incursões em polos financeiros de elite como a Avenida Brigadeiro Faria Lima, Pinheiros e Vila Olímpia, em São Paulo, e em Goiânia, Planaltina de Goiás e Valparaíso.A investigação começou há cinco meses, a partir de comunicações cruciais enviadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda à Polícia Civil do Distrito Federal, que identificou plataformas de bets operando sem a devida autorização federal.

O que os investigadores encontraram no mundo real, ao checar os endereços declarados, foram imóveis vazios, placas de aluga-se e estabelecimentos comerciais sem qualquer vínculo com tecnologia. Em um caso emblemático, em um único lote de Ceilândia, dez empresas diferentes indicavam o mesmo número de telefone corporativo. Era a primeira camada da fraude.Para o apostador comum, a experiência parecia simples, uma aposta virtual e o pagamento via QR Code Pix. Mas nas simulações feitas pelos técnicos da Fazenda, os pagamentos eram direcionados para empresas cuja atividade declarada não tinha qualquer relação com jogos, cadastradas na prefeitura como clínica de assistência psicossocial e loja de artigos de tarô, ambas com endereços registrados em Sobradinho.

As diligências identificaram dezenas de empresas de fachada abertas em um curto intervalo de tempo, entre fevereiro e julho de 2026, todas ostentando capitais sociais idênticos e endereços concentrados em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia.

A rede utilizava essas dezenas de PJs fictícios, muitas em nome de laranjas, para receber os valores via Pix, concentrá-los e redistribuí-los entre pessoas, empresas e instituições de pagamento, inclusive com conversão direta em criptoativos para congelar o rastreio.O ápice da engenharia financeira do esquema repousava em uma fintech com sede na capital paulista, autorizada pelo Banco Central a funcionar como Sociedade de Crédito Direto.

As cobranças por Pix dos sites investigados desaguavam em inúmeras contas mantidas nessa instituição, que também abrigava contas de outras empresas do esquema operadas sob constante rodízio de procuradores. Informações financeiras analisadas relativas à fintech e a empresas do mesmo grupo indicam uma movimentação impressionante de cerca de R$ 1 bilhão, incluindo repasses diretos a empresas investigadas e pagamentos vinculados a casas de apostas sem autorização.

O cerco sobre a instituição não é recente, em 30 de julho de 2026 o próprio Banco Central já havia divulgado publicamente a intenção de cancelar a autorização de funcionamento da referida fintech. Nesta operação, a instituição, duas empresas do mesmo grupo e seus dirigentes foram alvos diretos dos mandados de busca e bloqueio, com a ressalva judicial de que a restrição alcança apenas os recursos próprios da sociedade, preservando integralmente as contas de clientes terceiros que não são investigados.

Outro ponto cego explorado pela organização foi a tentativa de mascarar a ilicitude por meio de autorizações obtidas junto às loterias estaduais da Paraíba e do Rio de Janeiro. A apuração comprovou que nenhum dos sites investigados estava contemplado por tais licenças, que eram restritas a determinados territórios, marcas e portais aprovados pelos órgãos locais, não equivalendo à outorga federal exigida. Ademais, essas autorizações estaduais deixaram de valer após o término do prazo de transição previsto na Medida Provisória nº 1.394 de 2026, de 25 de setembro de 2026, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa sem respaldo federal. Três empresas vinculadas a esses credenciamentos estaduais foram tragadas para o centro da Operação Azzardo por conexões societárias e fluxos financeiros suspeitos. A primeira, administrada pelo grupo responsável por controlar uma das principais concentradoras de recursos do esquema, apresentava sucessivas trocas de sócios e procuradores e mantinha a maioria de suas contas em instituições não credenciadas pela loteria estadual, sendo que quatro dessas contas foram abertas antes mesmo de obter a autorização.

A segunda, um consórcio autorizado apenas 15 dias após a sua constituição, reunia PJs apontadas como destinatárias diretas de dinheiro de vítimas de estelionato e que transacionavam frequentemente com as empresas de fachada de Sobradinho e Ceilândia.

A terceira figurava nos relatórios financeiros como a concentradora final dos valores recolhidos pelas contas iniciais do Pix.O objetivo central das apreensões de mídias, computadores, celulares e carteiras de criptoativos agora é identificar os reais controladores por trás das plataformas digitais e mensurar a extensão dos prejuízos causados aos apostadores.

A estrutura não buscava apenas explorar o jogo clandestino, mas criar um duto paralelo de capital, aproveitando-se de brechas em instituições de pagamento para pulverizar o dinheiro antes da conversão em criptoativos.Os alvos da Operação Azzardo responderão por uma série de crimes, cujas penas privativas de liberdade, somadas em abstrato, variam de 11 anos e 6 meses a 31 anos de reclusão, podendo atingir até 33 anos nos casos em que a falsidade ideológica tiver sido praticada em documento público.

FONTE: REDAÇÃO

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