Senado Federal

Cigarro eletrônico atrai jovens e aumenta dependência de nicotina, alertam especialistas

Cigarro eletrônico atrai jovens e aumenta dependência de nicotina, alertam especialistas

Audiência pública no Senado debate os impactos do vape entre adolescentes e jovens, destacando riscos à saúde e desafios para fiscalização e regulação.

O uso de cigarros eletrônicos tem crescido entre jovens que nunca fumaram, elevando o risco de dependência à nicotina e trazendo prejuízos à saúde, segundo especialistas ouvidos em audiência pública no Senado, realizada em 6 de abril de 2026.

Durante audiência pública promovida pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, especialistas alertaram para o aumento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens, muitos dos quais nunca haviam experimentado o tabaco tradicional. O encontro, solicitado pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) em 6 de abril de 2026, reuniu representantes de instituições como o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).

André Salem Szklo, do Inca, contestou a ideia frequentemente divulgada pela indústria de que os dispositivos eletrônicos seriam 95% menos prejudiciais que os cigarros convencionais e que auxiliariam na cessação do tabagismo. Ele destacou que essa estimativa tem origem em um relatório de 2015 da Public Health England, hoje considerado controverso. Segundo Szklo, pesquisas indicam que cerca de 90% dos jovens adultos que usam vape nunca haviam fumado antes, configurando um recrutamento de novos usuários para o consumo de nicotina.

“A lógica da redução de danos não se sustenta, pois o cigarro eletrônico acaba atraindo uma população que nunca havia fumado e que pode migrar para o cigarro tradicional”, afirmou o especialista.

João Paulo Lotufo, da SBP, ressaltou os impactos diretos do uso do vape na saúde dos jovens, alertando que, embora nem todos desenvolvam doenças graves, o risco de problemas como câncer, acidente vascular cerebral (AVC) e transtornos psiquiátricos está presente. Flávia Fernandes, da SBPT, enfatizou que a nicotina contida nos dispositivos eletrônicos gera dependência mais rapidamente e pode causar alterações irreversíveis no cérebro em desenvolvimento dos adolescentes.

“Os jovens são vulneráveis a modismos e pressões sociais, e é fundamental que as políticas públicas protejam esse grupo”, destacou Fernandes.

A senadora Damares Alves chamou a atenção para o consumo precoce entre crianças, muitas vezes atraídas por produtos com design colorido e aparência inofensiva. “Há relatos de crianças a partir de 10 anos consumindo cigarros eletrônicos, inclusive em festas de adolescentes, onde os dispositivos são oferecidos em bandejas com cores e formatos atrativos”, afirmou.

Ela também criticou a influência econômica por trás do debate público, apontando que interesses da indústria do tabaco e do cigarro eletrônico atuam para manter o mercado aberto. “O que está em jogo é dinheiro. Empresas que produzem cigarros tradicionais também apoiam o cigarro eletrônico, o que revela a força dos lobbies envolvidos”, disse.

Marcelo Couto Dias, secretário da Família, Cidadania e Segurança Alimentar de Osasco (SP), destacou a insuficiência da atual proibição devido à fiscalização fragilizada, especialmente no ambiente digital, principal canal de acesso dos jovens aos dispositivos. Ele afirmou que a legalização não reduziria o consumo, citando experiências internacionais que indicam aumento do uso após a regulamentação.

O debate foi motivado pelo projeto de lei (PL 5.008/2023), de autoria da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), que propõe a regulamentação da produção e comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil. A proposta está pronta para votação na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), sob relatoria do senador Eduardo Gomes (PL-TO), e ainda passará pela Comissão de Transparência, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor (CTFC) e pela CAS.

Até 6 de abril, a consulta pública no Portal e-Cidadania registrava mais de 18 mil manifestações favoráveis e cerca de 14 mil contrárias ao projeto, refletindo o debate intenso sobre o tema.

Contexto

O aumento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens tem sido motivo de preocupação global, devido aos riscos associados à nicotina e aos efeitos nocivos à saúde. No Brasil, a discussão sobre a regulamentação desses dispositivos tem ganhado espaço no Congresso Nacional, com audiências públicas e projetos de lei em tramitação. Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) indicam crescimento significativo na experimentação do vape entre estudantes, o que reforça a necessidade de políticas públicas eficazes para prevenção e controle do uso, especialmente entre menores de idade.

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