Destaques

Promessa pela metade: o silêncio de Anderson Motorista sobre doações que ajudaram a elegê-lo

Desde janeiro, uma dúvida paira sobre o vereador Anderson Motorista: ele está ou não cumprindo a promessa de doar metade do seu salário parlamentar para ONGs? A proposta, feita durante a campanha, foi um dos principais trunfos que o ajudaram a conquistar votos, transmitindo uma imagem de altruísmo e compromisso com causas sociais. Mas, nove meses após assumir o cargo, o que se tem é silêncio — e nenhuma comprovação pública de que os valores estejam sendo repassados.

A estimativa é simples: considerando que o salário bruto de um vereador gira em torno de R$ 9 mil mensais, e que Anderson não especificou se a doação seria sobre o valor líquido, já teriam sido destinados cerca de R$ 45 mil às entidades beneficentes. No entanto, não há qualquer registro oficial, prestação de contas ou declaração pública que confirme esse repasse. A redação da Revista Reflexo Político tentou por diversas vezes obter uma resposta do gabinete do vereador, inclusive por meio de requerimento formal, mas não obteve retorno.

Anderson não confirma, mas também não nega que esteja descumprindo a promessa. E embora prometer não seja crime — não há sanção legal para quem não cumpre uma promessa de campanha — o eleitor que se sente enganado tem apenas uma arma: o voto na próxima eleição. A questão é que, para muitos, a promessa foi decisiva na hora de escolher o candidato. Doar metade do salário soou como um gesto de desprendimento, uma renúncia voluntária em nome do coletivo. Mas, ao que tudo indica, ficou só no discurso.

A situação se torna ainda mais controversa quando se lembra que Anderson foi um dos vereadores que votaram a favor do auxílio-alimentação de R$ 1.400 mensais para os parlamentares — um benefício que gerou forte reação negativa entre os vilhenenses. Se não estiver fazendo as doações prometidas, o vereador não apenas falha em cumprir um compromisso público, como também contribui para um gasto que a população vem criticando desde sua aprovação.

Casos semelhantes já ocorreram em outras cidades. Em 2022, o vereador Gabriel Monteiro, do Rio de Janeiro, prometeu doar parte de seu salário para instituições sociais e manter total transparência. No entanto, após denúncias e investigações, descobriu-se que havia inconsistências entre o que era prometido e o que era efetivamente praticado. A falta de prestação de contas clara sobre as doações contribuiu para o desgaste de sua imagem pública.

Outro exemplo é o do ex-prefeito de São Paulo, João Doria, que durante sua campanha afirmou que abriria mão do salário como prefeito. Embora tenha declarado que não receberia o valor, houve questionamentos sobre o real impacto da renúncia, já que ele continuava a usufruir de benefícios do cargo e não havia uma política pública clara sobre o destino do valor não recebido.

Por outro lado, há quem tenha cumprido integralmente esse tipo de promessa. O ex-prefeito de Porto Velho, Hildon Chaves, renunciou ao salário durante sua gestão, e ao que tudo indica, manteve essa decisão até o fim do mandato. Embora não tenha institucionalizado a renúncia como política pública, o gesto foi reconhecido como coerente e simbólico, reforçando sua imagem de austeridade de alguém que prometeu e cumpriu.

No caso de Anderson Motorista, a dúvida persiste. E enquanto não houver transparência, a confiança do eleitor segue no retrovisor. A promessa que ajudou a pavimentar sua vitória nas urnas parece ter ficado estacionada — sem destino, sem recibo e sem resposta.