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Guerra no Irã revela vulnerabilidades energéticas do Brasil, alerta ex-presidente da Petrobras

Guerra no Irã revela vulnerabilidades energéticas do Brasil, alerta ex-presidente da Petrobras - risco energético do Brasil

Sergio Gabrielli aponta impactos globais do conflito e desafios internos para o setor de petróleo e gás no Brasil

A guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz evidenciam a insegurança energética brasileira, agravada pela falta de investimentos em refinarias, segundo o ex-presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli.

O conflito no Irã, aliado ao bloqueio do Estreito de Ormuz, expôs fragilidades no setor energético brasileiro, especialmente no que diz respeito à capacidade de refino de petróleo. Em entrevista à Agência Brasil, o ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, que comandou a estatal entre 2005 e 2012, analisou os efeitos globais da crise e os desafios internos do Brasil para garantir segurança energética.

Gabrielli destacou que o atual cenário configura o terceiro grande choque do petróleo desde os anos 1970, com impactos profundos não apenas no mercado de petróleo, mas também no de gás natural. Ele ressaltou que as principais refinarias em construção no Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã, têm como destino prioritário os mercados da China e Índia.

Segundo o ex-presidente, a política agressiva dos Estados Unidos, especialmente durante o governo Trump, tem buscado controlar o mercado mundial de petróleo por meio de intervenções na Venezuela e no Irã. “O sequestro do presidente venezuelano e a imposição de sanções são exemplos claros dessa estratégia”, afirmou Gabrielli.

O Irã, segundo maior produtor do Oriente Médio, mantém um mercado paralelo devido às sanções americanas, com exportações principalmente para a China. Com a guerra, essa dinâmica deve ser alterada, especialmente após o controle do Estreito de Ormuz, onde o Irã passou a exigir pagamentos em yuans, desafiando o dólar como moeda padrão nas transações.

Gabrielli também apontou o papel crescente do Brasil, Canadá e Guiana como fornecedores emergentes de petróleo, com previsão de aumento de 1,2 milhão de barris diários até 2027. “O petróleo brasileiro é o que melhor se adapta às grandes refinarias chinesas, o que deve fortalecer a presença do Brasil nesse mercado”, explicou.

Porém, o ex-presidente alertou para a vulnerabilidade do Brasil devido à insuficiente capacidade de refino interna, especialmente para atender à demanda por diesel, que representa entre 20% e 30% do consumo nacional. Ele lembrou que, desde a Operação Lava Jato, os projetos de expansão de refinarias foram interrompidos e que, historicamente, multinacionais como Exxon e Shell resistem à ampliação do refino no país.

Gabrielli criticou a redução da carga de refino da Petrobras durante os governos Temer e Bolsonaro, que operaram as refinarias a cerca de 50% da capacidade, abrindo espaço para importadoras de combustíveis. Atualmente, com as refinarias funcionando a 93% da capacidade, ainda assim a demanda não é completamente atendida, e as importadoras atuam de forma especulativa, importando apenas quando os preços internacionais são mais baixos.

Sobre a transição energética, Gabrielli destacou que o Brasil não pode abandonar imediatamente os combustíveis fósseis, citando o exemplo de Cuba, que enfrenta graves dificuldades por falta de petróleo. Ele prevê que o choque atual estimulará uma mudança gradual no consumo e impulsionará a adoção de fontes alternativas no médio e longo prazo.

No contexto do hidrogênio verde, tema de seu livro “Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro”, Gabrielli afirmou que sua viabilidade depende da criação de um mercado sólido e da descarbonização de setores industriais como siderurgia, cimento, transporte pesado e aviação. Ele ressaltou que o hidrogênio, devido à sua complexidade logística, deve ser produzido próximo ao consumo e pode competir com biocombustíveis, possibilitando a produção de combustíveis sintéticos sem petróleo.

Por fim, Gabrielli estimou que o hidrogênio verde dominará o mercado de combustíveis por volta de 2035, mas alertou que decisões estratégicas precisam ser tomadas imediatamente para viabilizar essa transição.

Contexto

Desde a década de 1970, choques no mercado de petróleo causados por instabilidades no Oriente Médio têm impactado a economia global. O Brasil, que interrompeu projetos de ampliação de refinarias após a Operação Lava Jato e sob pressão de multinacionais, enfrenta atualmente desafios para garantir segurança energética. A guerra no Irã e o controle do Estreito de Ormuz intensificam essas vulnerabilidades, ao mesmo tempo em que alteram a geopolítica do petróleo, com maior protagonismo de países como Brasil, Canadá e Guiana na oferta para mercados asiáticos. O debate sobre a transição energética e o papel do hidrogênio verde ganha relevância nesse cenário.

Refinaria Abreu e Lima (RNEST), da Petrobras. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 

FONTE: ASSESSORIA- REVISTA REFLEXO POLITICO

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