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A VEREADORA QUE NEM CANDIDATA ERA

Ela não era pré-candidata. Pelo menos foi o que garantiu o presidente do Partido. Não havia nem sombra de intenção (aparente). Era apenas a “esposa do presidente”, do homem que dizia quem poderia ou não ser candidato. Mas bastou uma desistência “misteriosa” de uma pré-candidata e pronto: surgiu a candidata “tampão”. Também palavras do próprio presidente à época. O partido precisava de uma mulher na chapa. E ela, convenientemente, estava ali, como um “prelúdio da desistência”. Direito garantido, não fosse as nuances que envolveram sua entrada. Garantiu o direito, mas, abriu mão da ética.
A promessa era clara: todos os candidatos teriam recursos partidários. Palavra do deputado, replicada diversas vezes pelo presidente, embora deixasse claro que não tinha prerrogativa pra isso. Esperava “ansioso” pelos recursos, tanto quanto os demais. Agora sabemos. Palavra que, como tantas na política, evaporou no calor da campanha. Enquanto os demais corriam atrás do tal recurso, dois privilegiados garantiram R$15 mil no bolso em meio a um silêncio absoluto, assistindo a angústia dos colegas, ironicamente, do partido União, quietin, quietin. Nem um “recebi”, nem um “olha aí, galera”. Se esconderam como uma criança que tampa os olhos e acha que ninguém a achará. Mas achamos. Desmascaramos.
Quando foram desmascarados, veio a desculpa: “Foi a deputada que deu e ela pode dar pra quem quiser.” Mas, se podia, por que não contaram? Ficaram calados? Se omitiram de dar uma mínima satisfação aos demais? Esta foi a diferença entre uma conduta de boa e má fé. Como se verba pública fosse presente de aniversário. Como se o dinheiro que deveria ser dividido entre todos pudesse ser entregue como agrado, como mimo, como quem diz “você é especial”. E tudo isso dentro de um partido chamado União. Ironia? Não. Sarcasmo institucionalizado. Só esqueceram de considerar a ausência de boa fé no recebimento do benefício, uma vez que todos estavam no mesmo barco. Isso lembra aqueles filmes de fim do mundo em que muitos sobreviventes vivem em uma mesma casa abandonada e sempre tem aqueles que pensam noite e dia como burlar o sistema da geladeira para comer mais do que os outros pra garantir a sua sobrevivência, mesmo que isso implique na morte dos demais. Isso é jogo e ganha quem pode mais, certo? Errado, segundo os melhores conceitos cristãos.
O presidente, que antes dizia que a esposa era só uma solução provisória, virou cabo eleitoral de luxo. Secretário Executivo do governo no Cone Sul, com acesso, influência e — dizem muitos nos bastidores — uma tropa de portariados “convidados” a apoiar. Seduzidos ou pressionados, tanto faz. O fato é que a candidata tampão virou titular começando por enganar seus próprios colegas de grupo político.
Dois deles agora dividirão o Parlamento com ela, sabendo exatamente o que aconteceu. Eles chegaram também, sem os mesmos recursos e sentiram na pele o mesmo que os outros que não chegaram. Não por não terem vencido, mas, por não terem tido a mesma igualdade de condição com o dinheiro público que beneficiou apenas a agora “nobre edil” e outro ex vereador. Mas eles afrouxaram no discurso sobre o assunto assim que assumiram.
Seria nobre se tivesse contado aos seus colegas e enfrentado a reação. Provavelmente se tivesse dividido o recurso, teria chegado mesmo assim, agora pelos outros motivos, (parece que nem todos tão ortodoxos também), mas teria. A diferença? Ah, seria grande. Mostraria honestidade, dignidade, ética e respeito que norteariam sua conduta parlamentar e ainda teria o apoio dos vencidos do partido. Mas não. Preferiram o atalho da manobra vil, baixa e enganosa que só revelou seus carácteres.
E aí vem a pergunta que não quer calar: se durante a campanha já se engana os próprios colegas de partido, o que esperar de um mandato? Se a disputa interna já foi marcada por favorecimento na calada da noite, omissão e jogadas de bastidores, como confiar nas decisões agora que o poder veio oficialmente nas mãos?
Alguns vão dizer que foi Deus quem quis. Mas, será mesmo? Talvez por permissão, porque, se há algo que a Bíblia deixa claro, é que Deus não se confunde com esperteza política. Ele não compactua com trapaça, nem com manipulação. Deus não é cúmplice de estratégias que ferem a ética — Ele é justiça, e odeia a balança enganosa, como diz em Provérbios 11:1: “O Senhor detesta balanças desonestas, mas os pesos exatos lhe dão prazer.” e que a integridade, portanto, vale mais que qualquer vitória conquistada por atalhos. E não é à toa que Provérbios 19:1 nos alerta: “Melhor é o pobre que anda na sua integridade do que o perverso de lábios e tolo.”
Ou seja, não é o cargo que define o valor de alguém, mas a forma como ele foi conquistado. Deus não se impressiona com votos, com cargos, com títulos. Ele olha o coração, a intenção, o caminho percorrido. E como diz também em Provérbios, 15:3: “Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons.”
Nada passa despercebido por Ele. Nem acordos feitos na calada da noite, nem recursos distribuídos seletivamente. Se a campanha foi marcada por engano, como esperar que o mandato seja guiado pela verdade?
Talvez a lição mais dura seja essa: o poder não transforma caráter. Ele apenas revela. E quem trapaceia para chegar, tem grande chance de trapacear para permanecer.
Esperar pra ver. O tempo é um grande juiz e Deus, o maior de todos os juízes.

FONTE: REVISTA REFLEXO POLITICO